"... Porque és o avesso do avesso do avesso"
Foi exatamente este trecho da música "Sampa" de Caetano Veloso que veio à minha mente ao adentrar no Espaço Adélia. O pensamento alusivo ao verso do cantor e compositor tropicalista, me encheu de alegria e preguiça, por saber que a natureza tão surrealista ao habitual do "meu" cotidiano é concreta, aliás, viva. Por um momento, me esqueci, que concreta é a poesia usada na música, registro de uma época (extremamente atual) literária de imensa significância na história da literatura brasileira, estudada e referênciada por Décio Pignatari e pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, que ainda incentiva outros especialistas e poetas soltos pelo mundo.
Porém, no parque, não precisa ser poeta para ter inspiração. Desci sozinho pelo acesso principal, cercado por árvores centenárias de diferentes espécies e fontes com águas cristalinas. A paz ecoa, o som da natureza prevalesce sem dar trégua ao ruído. A fauna e a flora afloram.
Caminhei rente ao córrego com algumas pequenas quedas de água, recheadas em suas bordas por diferentes espécies de aves, que andavam na direção contrária, sempre distintas. Mesmo não sendo o principal acesso, a trilha, me levou ao Hall das Artes, espaço elegante de exposição com esculturas, pinturas, entre outros. Posteriormente, cheguei ao Teatro Walter José Lança (nome em homenagem ao idealizador do parque), espaço perfeito para um evento cultural, aliás, uma das características filosóficas dos administradores.
Após admirar os "salões" retornei ao espaço aberto, agora de frente às pessoas que caminhavam para praticar o arborismo e tiroleza. Atividades oferecidas pelo espaço aos praticantes do esporte. Conversei com alguns garotos equipados e aptos a encarar uma adrenalina diferente, até cheguei a subir em uma base para realizar algumas fotos, mas não prossegui, estava sem equipamento necessário. em terra, acompanhei a equipe em diversos pontos do trajeto, notando a nítida sensação de prazer por parte dos turistas, que se divertiam ao som dos cantos dos pássaros.
No fina do "tour" pelo Espaço Adélia, sentei-me em um banco em frente ao parque das crianças, onde pais e mães brincavam com seus filhos. Claro, lembrei-me da minha pequena que dormia tranquilamente a alguns quarteirões dali. Tenho certeza que ela curtiria muito, caso estivesse presente.
Naquele instante, sentou ao meu lado, uma mulher muito simpática e com um ar zen, Susi Bell, a atual proprietária e administradora do Espaço Adélia. Susi parou um pouco com seus compromissos para poder me atender. Conversamos por um tempo sobre a história do local, suas filosofias e, claro, a beleza poética da natureza.
Fico sempre feliz quando encontro pessoas como Susi, preocupadas com a educação, saúde, conhecimento e respeito alheio. Sers humanos que buscam colaborar com o próximo e propiciar algum tipo de informação e entretenimento. Creio que ganhei mais uma amiga em Monte Verde.
Enfim, a beleza surrealista existe e impera em cada palmo daqueles vinte mil metros quadrados, que está ali, cheio de paz, harmonia, cultura e muita natureza, com suas portas abertas aos turistas e moradores de Monte Verde e Camanducaia.
Texto escrito por Renato Coelho